Opinião

Isto é uma coisa a ver | Melania

5 abr 2026 10:46

O objetivo, comunicado nos primeiros minutos entre imagens da própria com o cabelo a ondular ao vento em corredores interiores, é o de mostrar a “sua jornada”, o caminho de transição entre a Melania cidadã comum e a Melania primeira dama

Depois da ressaca dos filmes oscarizados, em relação aos quais já muito se disse, Melania é um documentário disponível na plataforma Prime Video desde o dia 9 de março, que relata os vinte dias que antecedem a tomada de posse da 47º primeira dama dos EUA, e nos permite, sem narrativas complexas, grandes reflexões ou análises cinematográficas profundas, confirmar muito do que se antevia serem os bastidores da vida da mulher que está por detrás de um dos homens mais poderosos do planeta.

Produzido pela própria Melania Trump, realizado por Brett Raner (que em 2017 foi acusado nos EUA de abusos sexuais por seis mulheres e, na sequência das acusações, viveu em Israel até 2024, de onde voltou para realizar Melania) e financiado por Jeff Bezos, o filme é narrado em off pela própria primeira dama, documentando o que ela designou “a purposeful storytelling”. O objetivo, comunicado nos primeiros minutos entre imagens da própria com o cabelo a ondular ao vento em corredores interiores, é o de mostrar a “sua jornada”, o caminho de transição entre a Melania cidadã comum e a Melania primeira dama, sem nunca perder “propósito e devoção, orquestrando as complexidades da vida pessoal e cuidando das necessidades familiares”. O resultado final é um produto que faz lembrar os filmes históricos que mostram a ostentação das cortes imperiais decadentes, expressa na sumptuosidade dos espaços, na abundância dos dourados, na quantidade de serviçais, na arrogância das personagens, na superficialidade das preocupações e na banalidade das declarações. Como a própria Melania diz em relação às suas escolhas estilísticas (à volta das quais grande parte do documentário se centra), “a minha visão é sempre clara e é minha função transmiti-la à minha equipa para eles a trazerem à vida” de modo a promover a sua “elegância intemporal”, algo que poderia ter sido dito pela própria Maria Antonieta no século XVIII.

A par desta visão estética, Melania retrata também as preocupações humanitárias da primeira dama, partilhadas com Brigitte Macron, sua parceira na fundação Be Best, que se dedica a ajudar as crianças a manterem-se afastadas dos écrãs de forma a preservar a sua saúde mental, ou Rania Al-Abdullah, a rainha da Jordânia, com quem diz compartilhar “a mesma paixão pelo futuro das crianças”. A sua sensibilidade à solidariedade que expressa a uma mulher israelita, vítima do rapto do Hamas de 2023, declarando que sempre usará a sua influência e poder para lutar por aqueles que necessitam.

O documentário assume depois um tom mais intimista, revelando os espaços habitados pelos Trump, como a casa de Mar-a-Lago onde Melania diz encontrar paz, aconchego e amigos, como Jeff Bezos, a quem propôs a realização do filme durante um jantar.

Melania partilha ainda as suas ambições como primeira dama, como a de “romper as normas antigas e dar destaque ao seu papel”, tornando-se “uma influência positiva para o povo americano e uma força inspiradora para o mundo”, “reabastecendo”, juntamente com o seu marido, “o povo americano com alegria e otimismo”. E é o marido que se torna o protagonista principal do filme quando este passa a centrar-se na tomada de posse do Presidente, revelando a hierarquia interna do casal, patente em vários momentos, mas especialmente quando Melania sugere, na preparação do discurso, os adjetivos “pacificador e unificador” para caracterizar Trump e ele diz à equipa de reportagem “A mulher deu uma ideia! Não gravem isso, por favor.”

Tudo o resto no documentário são imagens da grandiosidade, beleza e elegância do evento e das pessoas importantes que a ele assistiram, que facilmente se podem interpretar como propaganda política, especialmente se tivermos em conta a banda sonora do documentário, embora por vezes seja difícil de interpretar a escolha musical. Se parece natural que as imagens de preparação para a tomada de posse sejam acompanhadas de Everybody Wants to Rule the World, dos Tears for Fears, e It’s a Man’s, Man’s, Man’s World de James Brown, já a escolha de Billie Jean, de Michael Jackson para a abertura do documentário, ou de La Gazza Ladra, de Rossini (ópera que narra a história de uma jovem criada acusada de roubo e por isso condenada à morte), imortalizada no écrã no filme Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, como banda sonora das imagens em que Melania acompanha Donald no jantar da tomada de posse, parecem escolhas mais duvidosas, ainda que com uma ambiguidade que não deixa de ser interessante.

Melania serve essencialmente para mostrar que o recato e silêncio da primeira dama durante o primeiro mandato não se devia, como se poderia ter erradamente assumido, a qualquer tipo de profundidade ou distanciamento em relação às políticas do seu marido. Devia-se, principalmente, a não ter nada de relevante a dizer. E talvez assim devesse ter continuado.