Opinião

Fáçamos um supônhamos

2 set 2026 15:24

Vamos supôr que uma menina franzina nasceu com uma miopia de dioptrias em crescendo, que obrigavam a lentes grossas para ver o mundo

Vamos supôr que uma mulher com o cabelo muito encaracolado, armado num ninho de carapinha, queria ter o cabelo muito liso, caído num molengo brilhoso. Escolhe o salão especializado, faz o alisamento da revista e fica tal e qual sempre sonhou. Olha-se no espelho que reúne um conselho de juízes e lhe confirma a perfeição, num aval dispendioso que vincula um amor-próprio sem preço. Fica feliz. Mas o cabelo já cresce, novinho em folha, no segundo em que paga e vai andando. Novinho e encaracoladinho, como é da sua natureza. Vem mostrar, ou relembrar, melhor dizendo, que não seremos nunca o que não somos, premissa que me chega com um sossego de rendição. Era bom sermos mais aptos, sermos mais lisos, mais justos, mais bonitos, mais amigos, mais intactos. Era bom podermos abandonar num desterro esquecido tudo aquilo que não conseguimos ser, tão só porque pertence a outras géneses que não nos calharam no sorteio universal. O cabelo impecavelmente liso da raíz à ponta, hoje, mas o milímetro que amanhã cresceu arrasta consigo um novo caracol e a carapinha antiga já emerge em força, no jorro irremediável do tempo a passar.

Vamos supôr que um homem comemora sozinho o seu sexagésimo aniversário. Insistiu a vida inteira no amor, tanto que se tornou uma canseira para quem o ouviu, para quem o leu, para todos os que estiveram por perto. Colados a si, em muitas ocasiões. Expressou-se sem pejo nem negociação com os juízos sabidos. Afugentou quem sentiu tanto amor dito como sinal de perigo, faltou-lhe a arte de encapotar as palavras para que parecessem mais mansas. Envelheceu sem diques que contivessem a torrente aberta de si, que não levava destino. Chegou ao dia em que ninguém lembrou que nascera naquele quadrado de calendário, num ano tão atrás que talvez não tivesse sequer existido. Se os pais o tivessem levado aos museus de pintura antiga, aos centros de artes contemporâneas, aos concertos de música clássica, aos teatros de lugares vazios, se em casa houvesse livros malditos à disposição, se lhe tivessem dito que podia ser livre, que devia virar-se do avesso e desempoeirar os entrefolhos de dentro, esfregar os olhos e escolher o prisma dos eclipses, se tivesse sido amado sem condições, talvez tivesse aprendido a dizer o amor sem usar qualquer palavra. Talvez acontecesse até, naquele dia, uma grande e efusiva jantarada de aniversário.

Vamos supôr que uma menina franzina nasceu com uma miopia de dioptrias em crescendo, que obrigavam a lentes grossas para ver o mundo. Ou só para ver a cara dos pais, numa sala pequena. A menina foi para a escola e não queria aqueles óculos massivos no nariz, maiores que a cara, que a tornavam azul numa sala de pares brancos e pretos. Assim que saía do carro com a mochila, era lá que os enfiava, lá mesmo no fundo. Sentava-se na primeira carteira da primeira fila e não via nada do quadro, fazia a cópia copiando a cópia que a menina que via bem fazia no caderno ao lado. Todos os exercícios do livro ela resolvia com uma facilidade inata. Mas aqueles que eram escritos no quadro tornavam-na, num repente, desprovida de saber. A parceira de carteira achou que ela lhe copiava as respostas e queixou-se a chorar. A menina foi isolada numa mesa lá ao fundo, num castigo que determinou a sua vida. Levou vários anos a concluir o ensino primário. Mas quando, já crescida, transitou para a escola a seguir, foi-lhe concedido o indulto de umas lentes de contacto. Mesmo a tempo do primeiro beijo na boca e de uma foto a sorrir no quadro de mérito da escola, pousado com destaque no átrio da entrada.

Vamos supôr que sabemos andar aqui, embora eu suponha firmemente que nenhum de nós saberá.