Eu gosto de errar. Mas à grande
Opinião
Eu gosto de errar. Mas à grande
25 jun 2026 09:23
Cada passo tem consequência. Cada escolha deixa marca. E há alturas em que não há forma de atravessar sem ferir qualquer coisa em nós. Há sangue nessa travessia. Não como dramatização, mas como consequência natural de viver. Mas é precisamente aí que alguma coisa se constrói
Há uma coisa que me inquieta cada vez mais. Não é a quantidade de informação que circula no mundo. É a velocidade com que as pessoas a aceitam e a transformam em forma de vida. Vivemos numa época estranha em que nunca houve tanto conhecimento disponível e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão raro encontrar alguém verdadeiramente interessado em construir uma forma própria de olhar para a realidade. Recebemos orientações para tudo. Para comer. Para dormir. Para treinar. Para pensar. Para ser produtivo. Para ser feliz. E, a pouco e pouco, habituámo-nos a isso, como se a vida fosse algo que se recebe já formatado, em vez de algo que se constrói devagar, com erro, com atrito e com tempo.
Talvez o problema não seja a falta de informação. Talvez seja a ausência de construção. Porque ninguém nasce com as janelas através das quais olha para o mundo. Essas janelas não vêm prontas, não vêm limpas, não vêm corretas. Constroem-se. E constroem-se lentamente, com leitura, com silêncio, com conversa, com contradição, com experiências que falham e outras que ficam. Constroem-se quando a vida deixa marcas e quando essas marcas não são apagadas à primeira tentativa de correção. Mas hoje tudo tende a ser corrigido depressa demais. Tudo tende a ser optimizado antes de ser compreendido.
Vejo isso em coisas pequenas e em coisas grandes. Vejo pessoas a pesar a comida como se a moral estivesse no grama. Vejo treinos transformados em obrigação emocional. Vejo o descanso tratado como ferramenta de produtividade. Vejo vidas inteiras organizadas como folhas de cálculo. E vejo também uma nova forma de autoridade a crescer nesse vazio: influencers físicos, mentais, espirituais, de comportamento, de disciplina, de sucesso, todos a vender versões simplificadas do humano. Não são apenas pessoas a falar. São sistemas difusos de orientação permanente, que entram no quotidiano como substitutos do critério interior.
E talvez seja aqui que tudo muda de escala. Porque uma coisa é ter referências. Outra coisa é perder a capacidade de as filtrar. Quando isso acontece, deixa de haver construção interior e passa a haver adaptação constante ao que vem de fora. E uma vida assim começa a parecer muito organizada por fora, mas muito frágil por dentro.
Uma sociedade construída assim torna-se mais fácil de conduzir. Não por falta de inteligência individual, mas por falta de espessura interior. As escolhas deixam de nascer de reflexão longa e passam a nascer de validação rápida. E isso não fica apenas no plano pessoal. Vaza para a cultura, para a política, para a forma como se escolhem líderes e para a forma como se aceita autoridade. A história já mostrou demasiadas vezes o que acontece quando o pensamento crítico é substituído por respostas prontas. Não é preciso repetir os nomes. Basta reconhecer o mecanismo.
E o mecanismo é simples: quando as pessoas deixam de construir pensamento próprio, alguém o constrói por elas.
Há um fio histórico que atravessa isto tudo. Houve uma época em que se tentou medir o humano como se o humano coubesse em medidas. Houve teorias sobre inteligência associada ao corpo, houve classificações, hierarquias, tentativas de transformar diferenças em ordem científica. Mais tarde, isso foi usado para justificar exclusões, violência e sistemas inteiros de desumanização. Stephen Jay Gould mostrou como muito do que parecia ciência era apenas uma forma elegante de confirmar aquilo que já se queria acreditar.
O nome muda. O mecanismo não.
Hoje já não precisamos de medições explícitas para organizar pessoas. Temos métricas mais subtis, mas mais constantes. Visibilidade. Desempenho. Corpo. Sucesso. Atenção. Tudo se tornou comparável. Tudo se tornou avaliável. E isso cria uma grelha invisível onde cada pessoa se percebe a si própria através de indicadores exteriores.
O resultado é uma estranha inversão: quanto mais informação existe, menos critério interior se constrói.
E isso tem uma consequência política inevitável. Uma sociedade que perde a capacidade de pensar por si própria começa a procurar alguém que pense por ela. Primeiro em especialistas. Depois em figuras de autoridade moral. Depois em líderes que simplificam o complexo até ele caber numa frase. E quando essa dinâmica se instala, o espaço do pensamento crítico vai sendo substituído pelo espaço da pertença. Não é uma falha súbita. É um deslizamento lento.
Vivemos tempos em que isso se torna visível outra vez. Não por comparação direta entre épocas, mas porque o padrão é reconhecível. Sempre que a construção interior enfraquece, a dependência exterior aumenta. E isso torna qualquer sociedade mais vulnerável a escolhas rápidas, simplificadas e perigosas. Talvez seja por isso que assistimos, um pouco por todo o lado, ao regresso de líderes que prosperam sobre medos simples, respostas simples e identidades simples. A fragilidade interior das sociedades transforma-se quase sempre numa oportunidade para quem sabe explorar essa fragilidade.
Mas a vida não foi desenhada para ser simples.
A vida é um túnel. E esse túnel não é limpo. Em muitos momentos atravessa-se sem ver bem o chão. Noutras vezes parece que se caminha descalço sobre vidro cortante. Cada passo tem consequência. Cada escolha deixa marca. E há alturas em que não há forma de atravessar sem ferir qualquer coisa em nós. Há sangue nessa travessia. Não como dramatização, mas como consequência natural de viver.
Mas é precisamente aí que alguma coisa se constrói.
O erro não é um desvio do processo. É o próprio processo. É memória que fica no corpo e no pensamento ao mesmo tempo. É aquilo que nos dá densidade. E uma vida sem densidade é uma vida que pode parecer mais controlada, mas é também uma vida mais fácil de deslocar, de moldar e de conduzir.
Talvez por isso me interessem cada vez menos as vidas perfeitas. Não porque não existam formas de cuidado, disciplina ou rigor. Mas porque há uma diferença enorme entre rigor e ausência de falha. E é precisamente nessa diferença que muitas vezes se perde a profundidade.
Sempre me interessaram mais os diamantes com ferrugem.
As pessoas que trazem marcas. As que já estiveram erradas. As que mudaram de ideias. As que têm cicatrizes intelectuais e emocionais. As que sabem que viver é acumular consequências e não apenas acumular métricas.
Porque ninguém constrói uma forma de ver o mundo sem se enganar muitas vezes pelo caminho.
Ninguém ganha autoridade interior sem atravessar contradições.
Ninguém aprende a pensar sem descobrir, repetidamente, que estava errado.
E talvez seja isto que está em falta: não conhecimento, mas espessura. Não informação, mas construção. Não opiniões, mas janelas próprias.
Janelas que não vêm prontas. Janelas que se fazem. Com tempo. Com erro. Com vida.
E eu gosto de errar… mas à grande!