Opinião
Entre teoria e prática: o que ainda distingue as licenciaturas dos politécnicos e universidades?
A matriz politécnica é real, mensurável e diferenciadora. Não é apenas retórica institucional.
Muito se tem falado sobre o fim do sistema binário no ensino superior português. Mas antes de avançarmos para esse futuro próximo, vale a pena olhar para o presente e perceber o que ainda nos separa, e o que nos define.
No Politécnico de Leiria, ao longo de mais de quatro décadas, temos afirmado que as nossas licenciaturas são práticas, orientadas para o saber fazer e para uma ligação genuína ao tecido económico, social e cultural da região.
Mas será que essa afirmação corresponde à realidade?
Fiz uma análise comparativa entre duas licenciaturas do Politécnico de Leiria, Engenharia Mecânica e Biologia Marinha, e os seus equivalentes na Universidade do Minho e na Universidade de Coimbra, respetivamente. Muitas outras se podiam fazer e, essencialmente, os resultados seriam semelhantes.
Os números falam por si.
Em Engenharia Mecânica, o Politécnico de Leiria tem menos horas teóricas (720 vs. 1080) e muito mais horas práticas laboratoriais do que a Universidade do Minho (750 vs. 210), prevendo ainda a possibilidade de estágio curricular, algo inexistente na congénere universitária.
Em Biologia Marinha, a diferença é ainda mais expressiva. Apesar da Universidade de Coimbra ter menos horas teóricas (655 vs. 877,5), a componente prática laboratorial, trabalho de campo, projeto ou estágio é menos de metade da existente na Licenciatura de Biologia Marinha do Politécnico de Leiria (454 vs. 988).
A matriz politécnica é real, mensurável e diferenciadora. Não é apenas retórica institucional. É por isso que, neste momento de transição para a Universidade de Leiria e Oeste (ULO), importa garantir que esta identidade não se dilui.
A componente prática, a ligação às profissões e ao mundo do trabalho, o enraizamento no território, com ambição nacional e internacional, são um dos nossos ativos mais valiosos. Não podem ser sacrificados em nome de uma uniformização que nivele por baixo o que construímos, sempre, por cima.
O país precisa de profissionais preparados para agir. O Politécnico de Leiria sempre fez isso, e espero que a ULO saiba preservar e ampliar esta vocação e legado.
Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990