Opinião
Deixa-me estar calado | A memória tem ruas ou as montras da memória
Leiria mudou. Muitas das galerias privadas que marcaram a cidade desapareceram. Peço desculpa se a memória me atraiçoa e me esqueço de alguma, mas hoje, restam praticamente a Galeria Quattro e a Livraria Arquivo. São espaços diferentes, mas ambos continuam a lembrar-nos que uma cidade sem lugares de encontro com a cultura perde, inevitavelmente, uma parte da sua alma
No passado mês de Dezembro estive no Japão.
Não sei explicar exactamente porquê, mas bastou ler o nome de Tokushima para regressar, de repente, à Rua Cidade de Tokushima, em Leiria. Um simples nome, encontrado a milhares de quilómetros de casa, fez-me viajar aos anos 90.
Ainda andava no ensino secundário. Vinha de Torrinhas, uma pequena aldeia do concelho da Batalha, e apanhava a carreira para Leiria com um caderno de desenhos debaixo do braço e uma enorme curiosidade pela arte. Não havia Internet nem redes sociais. Quem queria aprender tinha de sair de casa e ir ao encontro das obras de outros artistas.
Nos anos 90, Leiria era uma cidade onde a arte também se descobria a pé. As galerias privadas faziam parte da sua identidade cultural e ajudavam a dar vida à cidade. Havia várias, não muitas, mas eu fazia questão de as visitar.
A carreira deixava-me no centro e eu percorria-as quase como quem cumpre um ritual. Entrava numa, saía de outra, demorava-me diante dos quadros, tentava perceber as cores, os materiais e a identidade da obra de cada artista. Sem o saber, aquelas tardes estavam a educar-me o olhar.
Mas havia uma galeria onde entrava sempre de maneira diferente.
Quando Luísa Alberto fundou a Galeria Quattro, em 1986, criou muito mais do que um espaço de exposições. Criou uma casa onde tudo parecia pensado ao pormenor. As obras conviviam naturalmente com o mobiliário, os candeeiros, as cadeiras e os objectos decorativos. Nada estava ali por acaso. Muito antes de conhecer a palavra "curadoria", já aquele espaço me ensinava que uma galeria também se constrói através da beleza do lugar que acolhe as obras. Havia um gosto pelo detalhe, uma elegância discreta e uma coerência estética que distinguiam a Quattro de todas as outras.
Entrava sempre com algum respeito. Percorria a galeria devagar e imaginava como seria ver um dia um quadro meu pendurado naquelas paredes. Era um sonho de adolescente. Foi ali que comecei verdadeiramente a acreditar que a pintura podia ser mais do que uma paixão.
Nas noites frias de sábado, antes de seguir para os bares do Terreiro, fazia muitas vezes um pequeno desvio até à Quattro. A galeria já estava fechada, mas a montra permanecia iluminada. Parava alguns minutos diante do vidro, em silêncio, apenas a olhar para as obras. Enquanto a cidade se preparava para a noite, eu encontrava ali um inesperado aconchego.
Ao sair, seguia pela Avenida dos Combatentes da Grande Guerra e fazia nova paragem diante da montra da Livraria Arquivo. Cada livro parecia abrir uma janela para um lugar distante, como se todas aquelas capas escondessem viagens infinitas à espera de um leitor.
Só depois continuava o caminho até à Rua Duarte Pacheco, onde voltava a parar diante da montra da Galeria Capitel. Do número 12 saía, muitas vezes, música clássica que se espalhava discretamente pela rua e parecia convidar quem passava a subir ao segundo andar. Fundada por Joaquim Vieira, a Capitel, uma das mais antigas galerias privadas do país, era outro daqueles lugares onde a arte começava antes mesmo de atravessarmos a porta. Hoje percebo que essas pequenas paragens me ensinaram tanto como muitos livros.
Entretanto, Leiria mudou. Muitas das galerias privadas que marcaram a cidade desapareceram. Peço desculpa se a memória me atraiçoa e me esqueço de alguma, mas hoje, restam praticamente a Galeria Quattro e a Livraria Arquivo. São espaços diferentes, mas ambos continuam a lembrar-nos que uma cidade sem lugares de encontro com a cultura perde, inevitavelmente, uma parte da sua alma.
À Galeria Quattro e à Livraria Arquivo deixo o meu sincero agradecimento por continuarem, cada uma à sua maneira, a alimentar a vida cultural de Leiria.
Obrigado por ajudarem a formar o olhar de tantas pessoas, entre as quais me incluo.