Opinião

De pé com as mãos | O Sol como leprosário

20 ago 2026 10:44

"É preciso coragem para ser um tomate de boi num mundo que só quer tomate-cereja todo igual, todo perfeito. É preciso coragem para se ser grande, imperfeito, cheio de sumo, desajeitado, e amadurecer ao sol em vez de amadurecer na prateleira"

I A Carne da Terra

Tomates.

De boi.

Coragem.

Três nomes. Só de os ler assim, separados,

já é um poema inteiro.

Tomates. No plural. Nunca é um só. É

sempre abundância, é o Verão em cima do

balcão da cozinha, é coisa que amadurece

com o tempo e tem de ser colhida no dia

certo. É vulnerável – pele fina, rebenta com

facilidade. Não é fruto para quem tem

pressa.

Sabe ao rigor com que a luz cessa.

De boi. É o genitivo que muda tudo. Não é o

boi, é de boi. Pertence-lhe. Ao animal

grande, de olhos brandos, que leva a vida toda sem se

queixar. O boi não é o touro bravo, é a força

sopesada. Paciente. E o tomate que é

“de boi” é justamente o mais imperfeito de

todos – o coração de boi. Grande, torto,

com cicatrizes, nada redondinho de

supermercado. E, ainda assim, é o mais

saboroso. Sangue da terra,

secreto e vagaroso.

 

Coragem. Que vem de cor, coração e agem

 

- agir com o coração. Não é ausência de

medo. É fazer como o tomate: ficar

vermelho mesmo sabendo que a pele fina dói.

É fazer como o boi: avançar, lento, pesado,

bonançoso, mas avançar.

Eis a coragem: este rumor de gado

que leva o coração ao gume do prado.

 

Juntos os três nomes dizem isto:

 

É preciso coragem para ser um tomate

de boi num mundo que só quer

tomate-cereja todo igual, todo perfeito. É

preciso coragem para se ser grande,

imperfeito, cheio de sumo, desajeitado, e

amadurecer ao sol em vez de amadurecer

na prateleira.

Nunca metade. Ser terra inteira.

 

Tomates de boi. Coração de boi. Coragem

de gente.

 

II

O Canto e o Abismo

 

É preciso ter coragem para dizer o que

ninguém ousa dizer: que o Sol,

o grande tirano da nossa metafísica ocidental,

tem de morrer.

 

Quem é que teve esta coragem de o fazer em

primeira pessoa, sem uma metáfora piedosa?

 

Nem Ulisses “que jamais mereceu ser o herói da Ilíada,

essa cobardia feliz e segura”, como afirma Blanchot. O

Ulisses de Blanchot quer ouvir as sereias e sobreviver. O

do Reininho quer ouvir e ir com elas.

 

No ensaio “Le chant des sirènes”,de Le

Livre à venir, o Blanchot não vê as sereias como

uma cena bonita da mitologia. Vê como a

imagem do acto de escrever.

 

O canto é uma voz inumana, estranha ao

ouvido mortal, um apelo que vem de fora.

Promete saber total – “vem, vais saber tudo”

– mas quem cede morre.

 

Uma navegação por essa região

nebulosa onde se ouve o canto das

Sereias e se corre o risco do

desaparecimento.

Canto do abismo que, uma vez ouvido,

abria em cada fala uma voragem e

convidava fortemente a nela

desaparecer.

 

A solução de Ulisses – tapar os ouvidos dos

marinheiros com cera e mandar que o atem

ao mastro – é para Blanchot a figura do

escritor: aquele que quer escutar a origem,

o fora, sem se dissolver por completo.

Escrever é manter-se nessa tensão: ouvir o

canto e não sucumbir. Mas só o facto de

ouvir já é começar a desaparecer.

 

“Morte ao Sol”

 

O que escreve Reininho é toda uma recusa da

luz. Declarar-lhe a morte, e por voto directo,

é um acto político e poético. É dizer: prefiro a noite,

o nevoeiro, a voz rouca que só sai quando o céu se fecha

sobre nós.

 

É dionisíaco, no sentido em que o

Reininho sempre usou: Bataille, decadência,

prazer no pavor.

 

Ao contrário do Ulisses de Blanchot,

o Reininho recusa o truque do mastro. Ele

não quer ouvir com seguro de vida. Ele quer a

“overdose de pavor”, a “metamorfose de

horror”. Não quer ser o marinheiro que volta

a casa mais sábio. Quer ser o que fica.

 

Por isso a canção é tão blanchotiana sem

nunca citar Blanchot. Não é um homem a

falar sobre sereias. É um homem que se

pôs do lado das sereias e que agora canta

para nos chamar a nós. Ele já não ouve o

canto. Ele é o canto.

 

A poesia do Reininho não se lê com os olhos;

herda-se pelo ouvido.

 

Ao recusar o mastro e a cera,

Reininho regressa à origem pré-filosófica:

aquela região nocturna onde a fala

dos poetas cegos que cantavam de memória

antes de existir a escrita

era tudo o que tínhamos no escuro.

 

Daí o gozo estranho do “Felizmente”, do

“Ainda bem”, do “Estou contente”. Só se fica

contente com o fim da luz se o que se

deseja, no fundo, é o abismo que a luz

tapava.

 

III

O Assassinato do Fiscal

 

O Sol é o centro da nossa metafísica

ocidental desde Platão. Na República, o

Bem é o Sol – aquilo que ilumina todas as

ideias e torna o conhecimento possível. Daí

vem tudo: o logos apolíneo contra o

dionisíaco, Agostinho com a luz interior de

Deus, Descartes com a luz natural da Razão,

o Iluminismo inteiro a prometer que a Luz

vence as Trevas. Declarar morte ao sol é

declarar morte a essa cadeia toda.

 

Para Blanchot, o Sol é o mundo do dia,

onde a linguagem serve para comunicar e

explicar. A noite é outra noite, a que não

serve para dormir, mas para perder. As

sereias cantam a partir dessa segunda

noite.

 

O Reininho vota pela morte do dia

para que essa segunda noite possa

invadir o lugar. É a condição para que o

canto se torne audível.

 

Nietzsche foi o primeiro assassino. No

aforismo 125 n’A Gaia Ciência, o homem

louco grita: “desencadeámos esta terra do

seu sol?”. É literalmente a mesma cena do

Reininho, só que em 1882. Ele não diz que

Deus morreu sozinho – diz que “nós” o

matámos ao soltarmos a terra do seu sol. E

essa morte, para Heidegger, só pode ser

entendida não como teologia, mas como o

fim da própria filosofia como metafísica. O

Sol platónico apagado.

 

A diferença: Nietzsche anuncia, constata.

Reininho declara. É um acto de soberania

performativo, como quem assina um

decreto de guerra.

 

Se Nietzsche mata Deus/Sol, Bataille mata o

Sol por excesso. No La Part Maudite, o sol é

o grande doador que dá sem pedir retorno,

e que nos condena a uma economia de

desperdício, sacrifício e êxtase. A única

forma de ser livre dele é recusar o seu dom,

é sacrificar-se, olhar de frente até cegar. É

o único pensador do século XX que leva o

heliocentrismo metafísico ao ponto

de querer destruí-lo ritualmente.

 

Os poetas do crepúsculo.

 

Paul Celan: depois de Auschwitz, já não

há Sol que possa renascer sem ser

cúmplice. A sua poesia é toda pós-solar.

 

Beckett / Cioran: o sol é visto como torturador.

Cioran escreve que “só adoramos o sol

porque ele não nos deixa vê-lo”. Beckett

põe as suas personagens a desejarem a

noite como alívio.

 

Na música pop, quase ninguém. Há canções

sobre a noite, sobre a melancolia, mas

ninguém declara morte ao princípio

luminoso. Até os góticos adoram o sol como

inimigo estético. O gesto do Reininho é

punk no sentido mais filosófico: ele não

inverte a hierarquia – não diz “Viva a noite”

– ele executa o centro.

 

E faz isto em Portugal, país solar por

excelência, onde a identidade turística e

católica e optimista depende do Sol. Dizer

“morte ao sol” aqui, num refrão cantável,

nos anos 80 e 90, quando tudo à volta era

“Vamos viver o Verão”, é tão anti-metafísico

quanto o louco de Nietzsche na praça.

 

IV

A Ontologia do Nevoeiro

 

Rui Reininho nunca foi só um cantor. Foi um

herege. Filho único, criado no Bonfim,

ele entendeu que o rock

português não precisava de mais luz.

Precisava de nevoeiro. E Morte ao Sol é

a sua heresia mais maldita, mais acabada.

 

A letra abre com uma oração ao contrário:

“Felizmente que a noite sai / Ainda bem

que há névoa por aí / Estou contente se

a luz se esvai / E uma sombra invade

este lugar”

 

É o Reininho contra Platão.

Toda a filosofia

do Ocidente é heliocêntrica. Platão pôs a

Verdade lá em cima, no Sol das Ideias. O

Cristianismo pôs Deus na Luz. O Iluminismo

quis iluminar o mundo todo. Reininho faz o

gesto inverso. Um gesto gnóstico:

o criador do mundo material

— o Sol, o Demiurgo — é um tirano

ignorante.

 

A luz não nasce no céu.

Mora no escuro de nós.

Ele não celebra a noite por romantismo.

Celebra-a por lucidez. Porque a luz totalitária

do Sol é que revela “esta imagem atroz”. À

luz do dia, somos forçados a ser produtivos,

transparentes, optimistas, bronzeados.

 

O Sol aqui não é o astro. É Apolo. É a razão,

o dia, a verdade oficial, a moral, o amanhã

limpo e produtivo. É o grande fiscal. É o patrão.

É o chefe de serviço. É o Verão obrigatório.

A névoa, pelo contrário, é a condição da

penumbra e do mistério. Onde há névoa, há

interior. Há Porto. Há Bonfim em Novembro.

Há mistério.

Há entranhas.

 

A ontologia do amanhã

 

“Se um amanhã perdido for

metamorfose de horror / As trevas não

vão demorar”

 

Aqui Reininho é mais filósofo que muito

catedrático. Ele não teme o fim.

Ele teme um amanhã que seja tirado a papel

químico do hoje, a repetição, mas pior – “uma

overdose de pavor”. É o eterno retorno de

Nietzsche, mas sem alegria. É o tédio que o

próprio Reininho, o rei da pop-rock nacional,

cantou em Efectivamente, Bellevue ou

Pós-Modernos.

 

A Morte ao Sol não é, por isso, niilismo. É

profilaxia. Se o futuro que o Sol promete –

progresso, clareza, sucesso – já se anuncia

como horror, então que venha a noite

primeiro. Que a sombra nos invada. Mais

vale um luto escolhido que uma desilusão

imposta.

 

“Directa sim eu declaro morte ao Sol”.

Isto não é uma metáfora. É uma sentença.

Proferida com voz rouca, voz que se solta quando

“o céu se fecha sobre nós”.

 

É o homem que já

não quer ser iluminado. Quer ser abrigado.

 

Neste instante, Reininho deixa de ser o

vocalista do GNR e passa a ser o oficiante

de uma religião nocturna, muito portuguesa,

muito de Inverno.

 

Um culto que é, no fundo, uma canção de

amor à sombra. E só quem amou a sombra

 

- quem achou mais verdade às três da

manhã com nevoeiro na Foz do que ao

meio-dia em Agosto – a pode

compreender.

 

É o anti-hino solar de um país que teima em

vender luz quando aquilo de que o nosso íntimo

precisa é penumbra.