Opinião
Cinema | Leiria tem cinema independente
Este ano, tínhamos 65 filmes sobre as mais variadas temáticas, oriundos dos quatro cantos do mundo
Leiria tem cinema independente. Há muitos anos. E, a semana que passou foi mais uma prova disso. Numa época do pedido do link para ver depois; do streaming que se pode assistir on demand a qualquer altura; das desculpas de porque está sol, ou porque está frio, ou chuva, ou assim-assim; 3.500 espectadores não se quiseram juntar à mesmice ou aceitar que Leiria “não tem oferta de cinema” e encheram-nos a sala do Teatro Miguel Franco e José Lúcio da Silva, durante o 13.º Leiria Film Fest.
Este ano, tínhamos 65 filmes sobre as mais variadas temáticas, oriundos dos quatro cantos do mundo. E, mesmo assim, sentimos que a mensagem era a mesma: a da empatia. E é interessante assistir a histórias tão diferentes, que nos lembram de uma coisa que aprendemos tão pequeninos, mas que, ao chegar à idade adulta, temos a tendência de esquecer.
Penso que, talvez, esta mensagem esteja a ser bradada pela via cinematográfica para tentar rasgar as vozes, cada vez mais altas, que nos arrastam para o isolamento e egoísmo. E esta é uma voz que pode e deve ser assistida em sala. A sentir a comunidade a chorar e a rir. A emocionar-se. A pensar sobre os assuntos e a conversar sobre eles. E isto, não se consegue sozinho, em casa, em frente a um computador.
Porque, quando vemos filmes como:
Porque Hoje é Sábado, de Alice Eça Guimarães; Guanyin Hostel, do chinês Qiancao Xiao; Lost & Found, da polaca Wiktoria Kwoka; e Hey Mama, da austríaca Lily-Louise Ammann – assistimos, também, a várias facetas e contradições da maternidade, num mundo onde as mães são invisíveis, ao mesmo tempo em que se espera que levem o mundo às costas;
Por outro lado, Warden, do iraniano Sabah Mohammadi e Like Friend, Like Deer, do também iraniano, Malek Eghbali, lembram-nos das camadas opressivas de um “país capturado”, como reforçou Álvaro Romão (jurado e realizador).
Já o Darlinghurst Eats Its Young, da australiana, Madeleine Preston, recorda-nos um amor de amigas, num tempo toldado pelas drogas.
Sem esquecer, O Último Pastor do Sabugueiro, da francesa Laurène Da Palma Cavaco e Atom & Void, do português Gonçalo Almeida, que nos pedem para olharmos para o nosso planeta com olhos mais atentos.
Porque o cinema - a par de cinematografias brilhantes, excelentes arcos narrativos ou realizações arrojadas -, vive das histórias. E, as histórias da empatia por um povo que sofre, um planeta que grita de dor e mães que precisam de ter mais voz são, cada vez mais, uma forma de não nos esquecermos que os seres humanos são uma comunidade e não uma ilha.
E, durante aqueles seis dias, houve histórias, sim, mas também, masterclasses, educação dos públicos mais novos, visitas de escolas, encontros e uma homenagem muito especial a Júlia Buisel, que ajudou a construir o que o cinema é hoje.
Que o cinema nos una. Obrigada, e que venha o 14.º Leiria Film Fest.