Opinião
Cinema | Da esperança e da desilusão
Há ainda margem para contrariar e lutar contra a forma como facilmente se confundem perceções com factos, se emitem opiniões em vez de conhecimentos e se faz oposição em vez de colaboração?
Há uma mão cheia de semanas que não escrevo para este espaço. Gostaria de dizer que foi um período de reflexão e ponderação, que culminaria, finalmente, com um texto nesta edição, mas isso seria uma rotunda mentira. Foi apenas a vida a acontecer: intensa, rápida, implacável. Pouca margem para ponderações. Pouco tempo para reflexões. Apenas reação ao bulício inexorável do acelerado quotidiano. Mas se a vida acontece rapidamente, intensa e implacável, por vezes acontece que as considerações se impõem da mesma forma, surgindo onde e quando menos se espera e com a mesma veemência.
Foi assim que, à segunda sessão do hádoc, com a sala do Miguel Franco bem composta por algo mais que uma centena de espectadores, sentados para assistir ao filme Orwell=2+2=5, dou por mim nesse estado de espírito particular em que a consciência parece tomar o comando e em que as questões, sempre mais e em maior número que as respostas propriamente ditas, parecem surgir em torrente.
Primeira: numa terça-feira com direito a jogos da bola europeus, e quando prevalece o discurso de que não existe público para o cinema e que as salas estão mais ou menos condenadas à falência (muito por culpa do crescimento do streaming) que fazem ali aquelas cento e tal pessoas, espectadores pagantes de uma sessão de cinema?
Segunda: fará sentido exibir um filme que se assume com uma mensagem política clara e incómoda, que não oferece conforto nem esperança? Especialmente quando “os algoritmos” nos parecem entregar essa doce consolação sem o esforço da procura e da crítica?
Terceira: Há forma de replicar este fenómeno? Sem aligeirar o peso, sem retirar carga política, sem cair no facilitismo da (aparentemente) gratuidade e mantendo a vontade de contribuir para o crescimento dos espíritos críticos?
Quarta: Formarão esta centena de pessoas uma bolha? É disso que se trata? Se assim é, e se faz sentido pensar nos movimentos e nas oportunidades como bolhas, então como se fazem crescer?
Quinta: Há ainda margem para contrariar e lutar, forma efetiva, contra a forma como facilmente se confundem perceções com factos, se emitem opiniões em vez de conhecimentos e se faz oposição em vez de colaboração?
…
Não tenho, nem procuro encontrar facilmente as respostas para estas questões, mas partilho-as aqui, cruas e diretas, com a mesma simplicidade e rudeza com que me assaltaram. Alguém que queira e consiga, lhes dê resposta. Ou então não, deixe-as apenas poisar e refletir um pouco sobre elas. O filme, a escrita e o pensamento de Orwell, bem como a perspetiva de Raoul Peck contribuíram decerto para esta minha inquietação. Porquê? Não sei ainda, mas sei que essa coisa é que é linda.