Opinião
Artes Visuais | Lourdes Féria, culta e adulta
A Lourdes não escreve nem fala com rodeios, mas tempera tudo com um gosto alternative rock
Quando conheci a Lourdes gostei dela de imediato. Tinha uma maneira de se vestir extrovertida e era fácil falar com ela. Visitou o meu atelier e conversamos duas ou três vezes sobre pintura. Com tempo, refletiu, selecionou algumas pinturas, escreveu sobre elas e acompanhou a montagem duma exposição consequente no CCC Caldas da Rainha. Exactamente o que se esperaria de um curador.
A partir daí nunca mais perdi contacto com ela. Na verdade não conversamos muito frequentemente, mas eu tornei-me assíduo dos textos dela que de vez em quando vão aparecendo na Galeria Quattro, com quem tem mantido relações de curadoria/galeria há perto de uma década.
A Lourdes é uma pessoa que mede as palavras e usa-as com elegância e virtude, especialmente quando escreve. Nos textos, geralmente encontra um “problema”, faz a sua exposição, disseca o melhor que pode e apresenta o confronto com o trabalho do artista com o qual está emersa. Foi o que fez, e bem, novamente, sobre a pintura de Osias André, para uma exposição patente na Quattro. Começa com “Atualmente as novidades artísticas na maior parte das vezes reduzem-se apenas a ideias sem corpo, sem mistério, sem alma, meramente decorativas.”, passa para: “… o que se exige realmente da arte? O mistério, o sublime, o tumulto, a tensão, a emoção e a transcendência. E aquela camuflagem dos símbolos.”, apresenta: “Donde saíram as suas imagens? Talvez estivessem arrumadas no sótão do inconsciente. E agora, soltas, transmitem uma sensação de liberdade expansiva com um significado intrínseco que sugere algo de misterioso.” e remata: “Sorry: What’s it about? Nem sei. Bem, talvez sobre as boas vibrações artísticas do Osias.”
As escolhas da Lourdes são boas, são de alguém informada, critica e ao mesmo tempo deslumbrada com arte contemporânea.
Trouxe à minha atenção, ao longo dos anos, “a temática da gula”, com as pinturas da Isabelle Faria, a ideia que “anda tudo ligado” com o trabalho do João Belga, e uma citação do cineasta chileno Jodororowsky: “Não ganham as batalhas os mais fortes, mas os mais desesperados” referindo-se ao Manuel João Vieira, aquando da sua exposição individual na Galeria Quattro em 2019.
A Lourdes não escreve nem fala com rodeios, mas tempera tudo com um gosto alternative rock. Encontra maneiras irónicas de apresentar assuntos sérios, é como a RTP2, culta e adulta.