Opinião
A Torre de Marfim
Numa penada de humor hip-hop, Ice-T resume a nossa atualmente triste relação com a tecnologia, a privacidade e a proteção de dados. Na ânsia de tudo regular, proteger, controlar, publicitar — e sabe-se lá que mais —, os sistemas acabam por nos deixar diariamente à porta da nossa própria torre de marfim
Os Body Count, capitaneados por Ice-T, fizeram a sua tão aguardada estreia em Portugal em Vilar de Mouros. Tive pena de não ter estado presente, por motivos profissionais, mas fica a vontade de os ver regressar e de sentir ao vivo aquela energia Green Hill: “Body Count, Body Count…”
Quando regressaram aos discos, em 2014, com Manslaughter, gravaram uma nova versão de “Institutionalized”, um clássico dos Suicidal Tendencies. Ice-T adaptou a letra às perplexidades dos nossos tempos e chamou-lhe “Institutionalized 2014”.
Reza assim:
No outro dia, fui à Internet só para consultar o meu e-mail. Introduzi a palavra-passe, mas apareceu uma mensagem a dizer que era inválida. Eu sei qual é a merda da minha palavra-passe!
Depois, mandaram-me contactar o apoio ao cliente. Liguei para lá e comecei a falar com um tipo. Ele perguntou-me:
— Como se chamava o seu primeiro cão?
Como é que eu hei de saber a merda do nome do meu primeiro cão? Mas que raio se passa contigo?
— Eu só quero a minha palavra-passe. Dá-me a merda da minha palavra-passe!
Por fim, ele lá conseguiu recuperá-la e disse:
— A sua palavra-passe foi enviada para o seu endereço de e-mail.
— Mas eu não consigo entrar no meu e-mail! Que parte de “não consigo entrar no meu e-mail” é que não percebes, cabrão?
Então ele respondeu:
— Meu Deus, parece que tem um problema de raiva. Devia procurar ajuda.
Aaaahh!
Numa penada de humor hip-hop, Ice-T resume a nossa atualmente triste relação com a tecnologia, a privacidade e a proteção de dados. Na ânsia de tudo regular, proteger, controlar, publicitar — e sabe-se lá que mais —, os sistemas acabam por nos deixar diariamente à porta da nossa própria torre de marfim. Ficamos na merda.
Não deixa de ser irónico que, em plena era da digitalização selvagem, um dos meus objetos mais preciosos seja um simples caderno pautado com a palavra passwords escrita na capa.