Opinião
A banalidade do mal(dito)
A certa altura, a repetição substitui a reflexão. A rotina substitui o critério. E aquilo que começou por parecer estranho passa a parecer inevitável. Até que estranho passa a ser quem estranha
Há coisas que eu gostava que continuassem a existir. «Mal e parcamente» é uma delas. Sempre achei a expressão uma afronta bonita. Não bonita no sentido poético. Bonita no sentido funcional. Não dizia apenas que alguém tinha feito uma coisa mal: dizia que a tinha feito mal e, para cúmulo, tinha feito pouco. Era uma espécie de canivete suíço da desaprovação. Entretanto, em algum momento das últimas décadas, «mal e parcamente» transformou-se em «mal e porcamente». E ganhou. O que me interessa não é tanto o erro, o que me interessa é a forma como uma versão errada se instala.
Porque uma expressão errada não vence por estar certa. Vence por sedimentação. Primeiro, alguém diz «mal e porcamente». Depois, alguém ouve e não corrige. Depois, outro repete. Depois, outro. E, a certa altura, a versão certa começa a parecer pedante. Tenho vindo a suspeitar que uma quantidade desconfortável de coisas funciona assim. Basta olhar à volta. Para os praticantes de raquetes que escolhem sempre instalar-se junto das únicas duas toalhas pacatas existentes numa praia deserta, como se a modalidade dependesse da presença de testemunhas. Para os motociclistas que passam pela fila da portagem com o desembaraço de quem regressa de uma cimeira da NATO.
Nenhuma destas coisas parece especialmente grave. Mas também nenhuma delas apareceu de repente. Primeiro, alguém experimentou. Depois, ninguém interrompeu. E o que era excepção começou lentamente a candidatar-se a tradição. Um prédio devoluto, antes de ser um prédio devoluto, começou com um «Amo-te, Mónica». Na altura, era apenas uma declaração de amor. Como tantas catástrofes. Depois veio um portão que deixou de fechar. Depois, uma janela partida. Depois, um monte de móveis velhos à espera de uma decisão que nunca chegou. As ruínas raramente aparecem de repente. Vão chegando. Primeiro, uma cedência. Depois, uma excepção. Depois, uma explicação. Por fim, uma inevitabilidade. Ninguém olha para um edifício abandonado e pensa que está perante uma colecção de pequenas desistências. Mas está.
Talvez seja por isso que me irritam tanto certas manifestações menores de abandono. Não porque sejam graves. Mas porque são introdutórias. E, com isto, acabei a ler sobre a banalidade do mal, quando tudo o que queria era pensar numa expressão popular. É sempre um pouco embaraçoso quando uma reflexão sobre linguística desemboca em filosofia política. Mas começou a desenhar-se que a conclusão a que Arendt chegou sobre os grandes males ajuda a explicar uma quantidade surpreendente de males menores. Arendt foi à procura de monstros. Encontrou hábitos. Foi à procura de convicções profundas. Encontrou rotinas. Foi à procura do mal. Encontrou pessoas que tinham deixado de interromper o que faziam para pensar no que estavam a fazer. O que é uma notícia simultaneamente tranquilizadora e alarmante. É reconfortante saber que não estamos rodeados de monstros. Menos reconfortante é descobrir que bastamos nós.
A certa altura, a repetição substitui a reflexão. A rotina substitui o critério. E aquilo que começou por parecer estranho passa a parecer inevitável. Até que estranho passa a ser quem estranha. Talvez por isso continue a pensar em «mal e porcamente». Não por nostalgia linguística. Nem sequer por fidelidade a «mal e parcamente». Penso nela porque suspeito que a história desta expressão não é uma história sobre palavras: é uma história sobre a forma como as coisas mudam quando ninguém acha que vale a pena interrompê-las. Porque quase tudo o que acaba por parecer inevitável começou por ser provisório. E quase tudo o que acaba mal e porcamente começou por ser tolerado parcamente.